Berkeley e o Empirismo
eliane colchete
extrato do meu livro inédito "O devir das ciências humanas" (escrito entre 2006 e 2008)
espaço do blog reutilizado: postado em 2019
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O
século XVIII é marcado pela conjunção, conforme Bréhier, de
dois traços bem nitidamente visíveis no pensamento de Berkeley. A
crítica do conhecimento, voltada contra o imediatismo das
auto-apreensões cartesianas e a ciência que assim deriva o seu
fundamento; e uma forma de espiritualidade que se enuncia como um
profundo sentimento da onipresença do espírito. Esses traços me
parecem convergir na sua comum dependência à fórmula empirista que
transforma o conceito de objeto. Em vez de uma “coisa”, uma
realidade perceptível dotada de um “estofo”, para usar o termo
de que se servirá mais tarde William James, o objeto é limitado
pelos empiristas a correlato da consciência. Quanto a isso, Berkeley
e Hume comungam o mesmo princípio.
Mas
se ambos devem assim a precedência a Locke, cuja influência vimos
preponderante nesse período, é preciso agora deliberadamente
observar as diferenças. É interessante sublinhar que também em
Locke há uma vinculação da recusa ao inatismo com uma atitude
espiritual. O que, no entanto, não permite a conclusão de que esses
traços do século XVIII apenas repõem as premissas de Locke é
tanto a natureza do exercício crítico quanto a espiritualidade que
o embasa.
Assim,
a crítica de Locke ao inatismo se faz por meio de uma “história
da alma”, ao invés de um romance, como observou Voltaire louvando
o realismo característico da obra de Locke. Resta que essa
“história” tem muito de “natureza”, e quanto a isso Locke
pertence ao seu século, mesmo se não é negável que ele possui um
senso de “relatividade sociológica”, conforme a expressão de
Vergez-Huismann, incomum em sua época. Mas o que desejo enfatizar
com essa aproximação de história e natureza é que as análises de
Locke, desfazendo os mistérios que permitiam postular a autonomia
onto-teo-lógica das idéias, dependem principalmente da ligação
de consciência e mundo.
O
fato de que a partir da liquidação do pressuposto de uma
impossibilidade de conceber os princípios do intelecto a não ser
como auto-suficientes, por sua auto-evidência, segue-se uma
transformação correlata na noção de objeto não parece
fundamental à compreensão do escopo da crítica de Locke ao
inatismo. Assim, ao opor dois tipos de ciência, as ideais e as
experimentais, Locke não precisa fundar a oposição a partir de uma
decisão clara sobre o objeto dessas ciências, mas sim sobre o modo
pelo qual eles se estabelecem.
As
ciências “ideais” são as matemáticas e as que envolvem os
fenômenos humanos, como a moral. Elas não são ideais por estarem
portando sobre coisas mais reais, e sim porque seu modo de se
estabelecer depende de noções constantes, forjadas pelo espírito.
Enquanto que as ciências experimentais precisam ser reguladas por um
confronto constante com o mundo, já que a validez de seus juízos
porta sobre a coexistência das idéias neles afirmadas e as relações
que se verificam na realidade.
A
crítica de Locke supõe uma confiança no ser assim das coisas
conforme a representação que delas temos, ainda que não dependa
exclusivamente da afirmação de que as coisas são efetivamente como
temos delas a sensação. As idéias gerais, os universais, seriam
obra do ser humano, mas “fundada sobre a natureza das coisas”,
conforme a citação de Locke por Bréhier, de modo que as idéias de
sensação, aquelas que se reportam diretamente à exterioridade, são
ao mesmo tempo representativas do real e elementos irredutíveis da
consciência.
Essa
duplicidade se expressa, por exemplo, pelo fato de que se as idéias
de sensação captam tanto o essencial das coisas (qualidades
primeiras, como movimento, existência, número) quanto impressões
subjetivas (qualidades segundas, como a cor, o sabor, etc), resta que
, um pouco conforme Spinoza, as idéias de substâncias, qüididades
ou essências, são sempre incompletas, pois não sabemos jamais que
poderes desconhecidos pode revelar a experiência.
No
interior da obra de Locke esses traços não me parecem resultar numa
ambivalência especialmente acentuável, pois a motivação da
crítica como que une essas sugestões de modo inequívoco. O
trabalho de Locke tem um alvo preciso, a doutrina das idéias inatas,
nisso pelo que essa doutrina acarreta uma espécie de certeza
indesejável, que torna estéril o impulso do conhecimento científico
por se dotar de um falso critério de validez. O idealista, como o
platônico Cudworth ou o moderno Descartes, enuncia suas idéias sem
perceber que não há nada nelas que assegure sua verdade, pois o que
fazem é, a partir de noções construídas pelo espírito, como as
verdades matemáticas, derivar uma realidade autônoma,
auto-evidente, de outros tipos de idéias que, apenas para eles,
possuem o mesmo grau de clareza e generalidade, como os princípios
de religião e de moral.
É
por isso que a crítica ao inatismo está relacionada a uma atitude
espiritual bastante nítida. Locke pretende, por um lado, mostrar
que a verdade científica precisa ser descoberta e demonstrada pela
experiência, não apenas “revelada” a partir de visões
interiores. Isso, já que ela porta sobre o que não está,
precisamente, nesse interior, mas no mundo sobre o qual o espírito
pode, sim, enunciar juízos válidos, já que aquilo que ele conhece,
de que não pode duvidar seriamente pois são suas sensações
vividas, lhe vem sempre de elementos dessa exterioridade, ainda que
ele se sirva desses elementos para construir sistemas abstratos.
Mas assim, purgando a ciência de um critério falso de segurança, purga-se ao mesmo tempo a moral, já que esses princípios inatos se arrogam a revelação da universalidade de preceitos e crenças que não estão de modo algum garantidos como tais, mas que são impostos aos outros como se fossem uma questão de honestidade aceitá-los. A atitude espiritual de Locke se expressa como moralidade, sentimento de legalidade social que deve ser preservada contra as pré-concepções impostas pela parcialidade de interesses não inteiramente expressos, disfarçados por doutrinas que se arrogam uma autoridade que não podem fundar sobre nenhuma ordem demonstrável.
Mas assim, purgando a ciência de um critério falso de segurança, purga-se ao mesmo tempo a moral, já que esses princípios inatos se arrogam a revelação da universalidade de preceitos e crenças que não estão de modo algum garantidos como tais, mas que são impostos aos outros como se fossem uma questão de honestidade aceitá-los. A atitude espiritual de Locke se expressa como moralidade, sentimento de legalidade social que deve ser preservada contra as pré-concepções impostas pela parcialidade de interesses não inteiramente expressos, disfarçados por doutrinas que se arrogam uma autoridade que não podem fundar sobre nenhuma ordem demonstrável.
No
entanto, não julgando do ponto de vista da obra como um todo, mas de
postulados precisos que ela garante, o empirismo posterior à Locke
prossegue numa via de continuidade com seus princípios, mas também
crítica de suas ambigüidades setorizadas. Assim Berkeley rejeita
inteiramente o valor representativo das idéias para conservar
apenas a sua natureza de elementos básicos da consciência, o que se
mantém como traço comum no empirismo, desde então.
Ora,
a essa restrição se pode relacionar uma mudança de enfoque, pois
ao tipo de análise concreta, realista, ancorada na relação da
consciência com a exterioridade, que é característica do texto de
Locke, se substituem os diálogos e tratados de Berkeley e Hume, onde
predomina um clima de revelação sensacional, de reversão dos
fundamentos estabelecidos pela convenção na percepção do mundo,
ao mesmo tempo em que a atitude espiritual não se prende à simples
preocupação com a liberdade de consciência, social e moral, mas se
estende a uma concepção do real transmutada a partir dessa
reversão.
No
entanto, já se pode apontar um afastamento de Hume a Berkeley,
quanto a isso, pois se Berkeley fica fiel a essa espiritualidade de
modo a interpretá-la de modo místico, Hume a utiliza mais como uma
catarse, uma liberação, como se maximizasse as premissas legalistas
de Locke no sentido mais individualista, e por aí seus escritos
jocosos inspirados no ceticismo, em que ele explora a impossibilidade
de “provar” doutrinas metafísicas metamorfoseando sua linguagem
para apresentar exposições igualmente “coerentes” mas opostas,
de teses sustentadas por todos os tipos de “escolas” filosóficas
, idealista, estoica, epicurista, etc.
Contudo,
essas démarches se revelam algo paradoxais. Assim, o misticismo de
Berkeley, apoiado na redução do real ao imaterial percebido,
reverte finalmente numa aproximação à teologia que não permite à
sua posterior guinada ao platonismo parecer demasiado surpreendente.
Quanto a Hume, na crítica da religião atinge o máximo do humor
crítico, cáustico e sarcástico, não sem revelar seu poder de
penetração ao submeter o fenômeno religioso ao exame. Mas resta
que, como notam Vergez-Huismann, o texto sobre “religião natural”
, no qual encena a controvérsia entre três personagens
representantes de três vertentes religiosas opostas, permanece
complexo, nada fácil de interpretar quanto à posição do autor.
Assim não se pode derivar sem mais, em Hume, a atitude crítica a
uma indiferença espiritual, e cada uma dessas características
observáveis no seu tratamento do assunto se relaciona a
conseqüências importantes na compreensão de sua obra.
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Algo notável na evolução desse período é uma espécie de
reposição de meios, que se reencontram, mas sempre de modo algo
deslocado quanto ao uso, na obra de cada filósofo. Assim, o diálogo,
que se torna o instrumento da crítica do conhecimento, em Leibniz,
Berkeley, Hume, ressurgindo com Fichte. Mas também a contraposição
antitética ou dialética de afirmações que o empirismo torna
igualmente improváveis. Collier o utiliza, demonstrando igualmente
bem a tese e a antítese, seja quanto a existência do mundo
exterior, seja quanto à sua infinitude, seja quanto à
indivisibilidade da matéria, seja quanto à existência do
movimento, procedimento que culmina nas antinomias de Kant, mas
envolve também as paródias de discursos filosóficos, de Hume.
Assim
também Berkeley parece inicialmente apenas repor, ainda que nem
sempre no mesmo gênero, aquele consciencioso exame de idéias
característico de Locke. Mas sua arte de decomposição parece mais
extrema e se estende ao percebido não para determinar como nossas
idéias são formadas conforme a modalidade de sua apreensão por
nós, mas, quase que inversamente, como ele não corresponde à
objetividade que nós lhe emprestamos ao apreendê-lo.
Essa
decomposição do percebido deve atomizar o dado em tantas regiões
da experiência quanto a imediatez de nossa apreensão determina, em
vez de começar pelo pressuposto de sua unidade para nós como sendo
um critério válido da sua objetividade em si. O exemplo é o do
conceito de espaço, que supomos uma unidade ou “sensível comum”
às regiões irredutíveis dos sentidos tomados separadamente, como a
visão e o tato. Berkeley se empenha na demonstração de que o
espaço visual não coincide com o espaço tátil. Aquele se limita a
comprimento e largura, não portando a profundidade senão como um
cálculo aproximado de luz e sombra que a experiência ensinou a
interpretar em termos de distância percorrida, isso que pertence
apenas ao tato.
Assim
a correspondência dos dois espaços nada tem de a priorística, mas
depende da experiência que ensina a ligação da mudança de
claridade com a mudança de distância. Nós devemos aprender essa
relação do mesmo modo que aquela que se interpõe entre o signo
verbal, isto é, a palavra, e o objeto que ele designa. O “objeto”
é construído na experiência como horizonte dessas fontes
irredutíveis, para cada qual existe, na realidade revelada pelo
exame, um objeto próprio. A experiência das coisas é ela mesma uma
linguagem, e é assim que deduzimos um Espírito Universal que a
institui, do mesmo modo que a linguagem verbal supõe um espírito
que a constitui. As séries táteis e visuais induzem a afirmar uma
correspondência providencial que só pode ser garantida por Deus.
Em
geral trata-se de utilizar todos os meios para surpreender a
inconsistência das afirmações derivadas do inatismo,
considerando-se toda a filosofia cartesiana como uma tautologia.
Especialmente Berkeley se exercita na impossibilidade de manter a matemática como um tipo de conhecimento puro ou “espiritual”, não tanto porque, como construção do espírito, ela supõe elementos fornecidos pela experiência, e mais devido a que aquilo que ela constrói como verdade inegável não resiste a uma consideração isenta do pré-conceito dessa inegabilidade, isto é, um exame do dado na realidade de sua vivência pelo ser humano: a linha se move, alterando suas pretensas dimensões estabilizadas quando nos movemos, o tempo é uma sensação e suas flutuações tem a ver com as do espírito, nada tendo de puramente objetivas. Não existe “o” triângulo, a abstração, nem mesmo na mente, que só lida com essa figura aqui, desenhada como isósceles ou escaleno ou eqüilátero.
Especialmente Berkeley se exercita na impossibilidade de manter a matemática como um tipo de conhecimento puro ou “espiritual”, não tanto porque, como construção do espírito, ela supõe elementos fornecidos pela experiência, e mais devido a que aquilo que ela constrói como verdade inegável não resiste a uma consideração isenta do pré-conceito dessa inegabilidade, isto é, um exame do dado na realidade de sua vivência pelo ser humano: a linha se move, alterando suas pretensas dimensões estabilizadas quando nos movemos, o tempo é uma sensação e suas flutuações tem a ver com as do espírito, nada tendo de puramente objetivas. Não existe “o” triângulo, a abstração, nem mesmo na mente, que só lida com essa figura aqui, desenhada como isósceles ou escaleno ou eqüilátero.
Ora,
isso torna o mundo material ele mesmo espiritual, no sentido de
produzido pelo espírito que o vivencia. Por isso Berkeley rejeita
igualmente a diferenciação de Locke acerca das idéias, pois o que
poderia opor a sensação da reflexão, o branco e a sua percepção?
Essa oposição apenas poderia consolidar aquela de matéria, o que é
o objeto da sensação, e espírito, que percebe. As coisas são
modos da existência das pessoas que as vivenciam, são puramente
percepções.
Se
a motivação moral de Locke se relacionava a purgar o conhecer de
sua pretensão a priorística, Berkeley mostra que a tarefa crítica
deve visar principalmente a linguagem, pois é ela que devemos
responsabilizar pela crença aberrante nas abstrações, isso que
compromete a ciência mais do que o inatismo, já que o uso comum da
linguagem induz a uma confiança na objetividade do dado independente
de estar sendo proposto a prioristicamente ou não.
A
crítica de Berkeley abrange assim tanto Descartes quanto Locke, pois
o erro fundamental é a crença numa realidade independente do
espírito e isso não parece ter sido especialmente enfatizado por
Locke. Inversamente, ele manteve a doutrina das idéias abstratas
como fabricadas pelo espírito, independente da questão da
correspondência à essência que, se permanece desconhecida, é, no
entanto, real. Como vimos, para Berkeley qualquer espécie de
abstração não existe, pois o espírito não pode por uma ideia
que não manifesta as suas implicações, como um movimento que não
é nem lento nem rápido, um triângulo que não determina a relação
dos seus lados ou ângulos, etc.
A ideia abstrata é uma fantasia dos filósofos, um modo de considerar o funcionamento da mente que não corresponde ao real.
A ideia abstrata é uma fantasia dos filósofos, um modo de considerar o funcionamento da mente que não corresponde ao real.
Fantasia cuja fonte é a linguagem ingenuamente utilizada, pois,
pensa-se que ela não teria significação se cada palavra não
correspondesse a uma ideia geral ou abstrata, não redutível a
qualquer particular, mas enunciando o que há de mais comum a uma
classe de seres. Berkeley mostra que, inversamente, o que o nome
designa é a quantidade ilimitada dos seres possivelmente
classificáveis na abrangência do seu uso. A palavra não tem por
correlato um todo, mas uma multiplicidade ou um sentimento, uma
posição ou estado do espírito. Aqui se insinua o “monstro” na
filosofia, pois trata-se de mostrar que a ideia abstrata é um
monstro lógico, esse epíteto que veremos ressoar na filosofia de
Fichte.
O
que se trata de preservar é a indeterminação do signo, mais
profundamente a relatividade da experiência ao espírito, mas de
modo que a fluidez não deve se estancar tampouco numa concepção
rígida acerca da Subjetividade, como o que “põe” à frente algo
desde que se pro – põe como realidade irredutível. Visto desse
modo, teríamos duas abstrações, a de um ser cuja ideia tem como
conteúdo a tese da existência em geral, e aquilo que dele
subtraindo-se assegura ao mesmo tempo a sua realidade e a desse ser
previamente dado.
O
espírito, em Berkeley, começa por assegurar-se, não por “uma”
ideia, mas como um movimento, uma causa motriz do fluxo de idéias,
que se sucedem e se combinam de certos modos precisos. Se essas
idéias são provocadas, isso só induz à interação entre
espíritos, não a uma necessidade de postular “coisas” na
exterioridade, que por si deveriam impor a experiência como sendo
a de uma objetividade. E se restam ideias que parecem não depender
da vontade, de outros espíritos como agentes, podemos postular a
existência de Deus como Mente ou Vontade infinita que atua a ordem e
a harmonia das coisas naturalmente perceptíveis.
O
espírito se auto-apreende como essa causalidade livre, que
compreende a interação com outros espíritos, e ele pode
generalizar a posição do espírito universal, Deus, agente livre da
natureza, dessas idéias que se agrupam, séries regulares de
percepções cuja coerência se interpõe, como vimos, pela
convergência providencial de regiões irredutíveis de
perceptibilidade.
Sciacca
propõe aqui uma convergência de Berkeley e Malebranche. Conforme a
tese ocasionalista de Malebranche toda postulação de causa
compreende a ação de Deus, já que a aceitação do dualismo
irredutível entre matéria e espírito deve impossibilitar que se
estenda qualquer interferência entre as substâncias. Assim,
conforme Sciacca, a “solução ocasionalista” reverte na
produção, por Deus, das idéias nos espíritos que compreendem
assim a linguagem da natureza. A proposição essencial de
Malebranche, como destacam ainda Vergez-Huismann, é que a verdade
é Deus, e o que vemos não são criações, mas “vemos em Deus”,
é nele que atingimos as idéias das coisas, arquétipos ou modelos
eternos, sendo o pensamento de Malebranche bastante platonizado mas num sentido comum a Santo Agostinho.
Ora,
aqui Malebranche como que joga Descartes contra Descartes, pois a
adoção do mecanicismo cartesiano se faz pela contrafação da tese
cartesiana pela qual o intelecto de Deus e sua vontade são
completamente independentes, o que se opõe à doutrina do
agostinismo, que é a de Malebranche, da visão em Deus. Pois essa
doutrina depende da vinculação da criação à necessidade
racional, restando a vontade de Deus livre apenas no sentido de
escolher quais dentre essas coisas serão chamadas a existir.
Compreender uma relação necessária no mundo é, portanto, ver no intelecto mesmo de Deus, reconstituir a correlação mesma que aí se institui. Descartes se opôs veementemente a essa perspectiva, consistindo essa oposição, como acentuou Bessayde, na tese inaugural de sua obra. Para Descartes isso equivaleria a submeter Deus ao destino. A razão é constituída por determinadas relações porque Deus quer, não porque sua vontade devesse se subordinar ao seu entendimento. Essa desvinculação de vontade e entendimento em Deus é, a meu ver, o que permite a Descartes lançar a hipótese de um Deus enganador, já que por vontade Deus teria o poder de induzir uma realidade no intelecto humano que não corresponde ao que Deus efetivamente pensa.
Compreender uma relação necessária no mundo é, portanto, ver no intelecto mesmo de Deus, reconstituir a correlação mesma que aí se institui. Descartes se opôs veementemente a essa perspectiva, consistindo essa oposição, como acentuou Bessayde, na tese inaugural de sua obra. Para Descartes isso equivaleria a submeter Deus ao destino. A razão é constituída por determinadas relações porque Deus quer, não porque sua vontade devesse se subordinar ao seu entendimento. Essa desvinculação de vontade e entendimento em Deus é, a meu ver, o que permite a Descartes lançar a hipótese de um Deus enganador, já que por vontade Deus teria o poder de induzir uma realidade no intelecto humano que não corresponde ao que Deus efetivamente pensa.
Assim,
na perspectiva de Sciacca, a interconexão espiritual que garante o
percebido como natureza, em Berkeley, seria uma reposição do
ocasionalismo. Penso que não há dúvida quanto à convergência de
intenções teológicas em ambos os pensadores. Mas, não obstante a
diversidade de vias, essa intenção, que é a de assegurar o poder
absoluto de Deus, é também a de Descartes. Vergez-Huismann
acentuam bem mais o que realmente separa e relaciona as perspectivas
de Descartes, Malebranche e Berkeley. Em todo caso trata-se de fazer
de Deus a causa de nossas idéias, e Berkeley começa por estar de
acordo com Descartes. Mas o que opõe Descartes e Malebranche é que
desde sempre Malebranche não propõe Deus como causa de nossas
idéias sem ao mesmo tempo supor que ele é a morada dessas idéias.
Ora, é isso que Berkeley vai sustentar na guinada platônica de sua
velhice, após a leitura de escritos neoplatônicos durante sua
estada na América.
Mas
é importante enfatizar aquilo que está implicado nessa reversão
do postulado cartesiano. Trata-se da noção de ideia como
representação. Sciacca sublinha que para Berkeley as idéias são
inativas, passivas, como que produzidas, seja pela vontade de outros
espíritos, seja pela vontade de Deus, já que nessa perspectiva,
como notou Bergson, “a matéria seria uma língua em que Deus nos
fala” (Vergez-Huismann, p. 243). Assim elas nem são simples
representações subjetivas no sentido de Locke, já que o percebido
é real, nem, conseqüentemente, são destituídas de valor
ontológico como no sentido de Descartes, pelo qual ela é apenas um
ato mental. Berkeley recusa todo ceticismo, aceitando os dados como
aparecem. Como não seriam exatamente assim, se não são mais do que
o seu ser percebido?
Contudo,
Vergez-Huismann mostram que o que há em comum a Berkeley e
Malebranche se limita ao ocasionalismo, sendo a ideia visível não
uma causa real, mas apenas uma “causa ocasional”, isto é, o
signo da ideia tangível produzida por Deus no espírito, e à
doutrina da visão em Deus. Mas enquanto Malebranche estende o
ocasionalismo à própria vontade das criaturas, que seria também
uma simples causa ocasional, Berkeley atribui à pessoa humana uma
liberdade real, uma ação eficaz. E Malebranche jamais estendeu a
sua teoria no sentido do imaterialismo.
Conforme
Bréhier, o imaterialismo de Berkeley se relaciona a uma reversão
da epistemologia clássica. Pois nesse período aceita-se geralmente
uma oposição, seja no sentido de Locke, entre idéias primárias e
secundárias, seja no sentido de Malebranche, entre idéias que têm
seu objeto em Deus, e sensações, simples modalidades do espírito,
ou mesmo, em Descartes, entre idéias claras e distintas, obscuras e
confusas. Essas oposições servem a uma fundamentação da
matemática e da física mecânica, pois só essas ciências se
justificam ao ser atribuídas como domínio de idéias estáveis,
correlatas ao modo de ser indubitável das coisas mesmas.
Berkeley
critica tais oposições, para afirmar que essa atribuição é
arbitrária. Como num círculo vicioso, são essas ciências que
procuram se justificar, conferindo um valor especial a uma classe de
idéias. As matemáticas se formam, na realidade, apenas como uma
linguagem arbitrária com a qual podemos expressar o que percebemos.
Bréhier assinala os limites e o interesse desse empreendimento
crítico. Berkeley, movido pelo intuito de somente considerar real o
percebido, rejeita nas matemáticas toda criação que não pode ser
de algum modo reduzida ao perceptível: tanto a divisibilidade ao
infinito quanto o número irracional e a noção de um espaço maior
que qualquer espaço dado. Mas rejeita também a noção de causa ou
força na física mecânica. Assim, contudo, ele chega a uma
concepção de ciência singular e original, pois por essa crítica
da causa, postula uma física como ciência de leis, o que antecipa
o positivismo, ainda que conserve o finalismo.
O
que Berkeley preserva por esse meio é a impossibilidade de se
considerar a causa como uma necessidade, o produto do conhecimento
como garantido por um sistema de razões que por si se mantém,
quando a “natureza” só se nomeia como providência. O que há de
inteiramente ordenado se deve ao conhecimento que recupera a ordem, a
beleza, as qualidades inerentes à criação, no sentido forte
do termo, isso que se comunica ao espírito que percebe o real. Como
em Descartes, o que Deus cria não está na dependência de uma
necessidade, mas como em Malebranche, nada há na exterioridade do
espírito mesmo de Deus.
A
imagem do universo se articula a partir do espírito que se expressa
aos outros espíritos, isto é, Deus. Essa expressão se faz por meio
de uma linguagem organizada, constante, a física sendo a apreensão
dos signos dessa linguagem, a metafísica, a compreensão de sua
significação. Ora, na obra da velhice Berkeley enuncia uma
concepção algo afastada dessa premissa imaterialista, sustentando o
conceito de universo animado, cujos movimentos são regrados por um
fogo sutil, ou fluído vital, tornando-os simpáticos, convergentes.
O ser supremo que utiliza esse fogo ou fluído é Deus: força,
bondade e inteligência.
Bréhier
acentua o que há de singular nessa transformação do pensamento de
Berkeley. O platonismo que havia restado a partir do século XVII e
na ambientação das luzes, como no exemplo de Cudworth, estava
purificado das interpretações místicas da magia do Renascimento. O
que se devia evitar eram as conseqüências neoplatônicas do
panteísmo ou da negação ao Uno das características de
subjetividade, como inteligência ou consciência, que convém à
crença em um ser como Deus.
Ora, Berkeley interpreta a massa de escritos neoplatônicos e neopitagóricos oriundos da Renascença no sentido de uma filosofia oculta, sabedoria originária pertencente às eras mais antigas do mundo, tipo de mistério transmitido à margem do pensamento oficial. Quanto a isso Berkeley não deixa de antecipar a atitude que vemos emergir no pré-romantismo.
Ora, Berkeley interpreta a massa de escritos neoplatônicos e neopitagóricos oriundos da Renascença no sentido de uma filosofia oculta, sabedoria originária pertencente às eras mais antigas do mundo, tipo de mistério transmitido à margem do pensamento oficial. Quanto a isso Berkeley não deixa de antecipar a atitude que vemos emergir no pré-romantismo.
Assim
Berkeley visou o platonismo pelo viés de seu destacamento das coisas
sensíveis, por sua limitação ao puramente intelectual. Ora, a
crítica das ciências em Berkeley, isso que o faz algo deslocado
desse período, abarca precisamente toda dependência teórica de uma
realidade material ou sensível. Enquanto que o seu platonismo
místico, modulado no sentido de um cristianismo avant la lettre,
pode sustentar o conceito de um universo inteiramente relacionado à
ação de Deus. O fogo sutil não contradiz o imaterialismo, já que
atua como força, não desviando a natureza de seu caráter
intrínseco que é o de ser percebida.
O
platonismo parece bastante conveniente, então, por permitir
contornar o problema do conhecimento nessa ambiência imaterialista,
já que estabelece a relação do conhecimento apenas no plano das
realidades espirituais, não das coisas sensíveis. Ora, Bréhier
mostra que mesmo na obra anterior à guinada platônica, a crítica
da religião natural e a defesa da religião revelada, em Berkeley,
ilustravam bastante bem o imaterialismo, pois o argumento dessa
defesa se baseia na impossibilidade para o senso comum de se servir
dos raciocínios sutis dos filósofos que fundamentam a religião
natural, enquanto que os preceitos e oráculos da religião revelada
se acomodam melhor à aptidão do povo e ao bem da sociedade. Ou
seja, conforme o imaterialismo, a verdade não imediatamente
alcançável só é real pelo concreto, pelo imediatamente
percebido, assim como a matemática pela sensação, a razão pela
revelação. Já no âmbito do platonismo, Berkeley mantém a
inacessibilidade da realidade espiritual na exterioridade da
revelação.
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